LANÇAI AS REDES!
LANÇAI AS REDES!
João J. C. Sampaio
Nadar contra a correnteza exige habilidade e preparo físico de nossos corpos. É preciso até mais: estar psicologicamente convencidos de que seremos realmente capazes de realizar tal peripécia. Há, porém, uma correnteza muito mais poderosa que mina as nossas energias, nos desgasta até a alma e quase nos obriga a afirmar que “não dá mais”!
Essa forte correnteza vem do “oceano” social com todos os seus poderosos tentáculos ideológicos que manipulam os nossos desejos e jamais se cansam de doutrinar as nossas cabeças com tantas propagandas e insinuações. Em todo e qualquer lugar estamos debaixo de ordens, gritos de comando ou de aliciamentos que impõem o que devemos pensar; o que fazer e como fazer; o que comer; o que beber; o que vestir; o que comprar e tantas outras sugestivas obrigações que farão de nós, afirmam, seres felizes e realizados! Os seus valores são ressaltados como maravilhosos, desejados, invejados, benéficos, éticos, até absolutos. Mais: tudo isso já está plenamente reconhecido e absorvido pela maioria de nossa gente, de modo que somos desestimulados ou menosprezados em nossa ousadia de pensar, criticar ou agir diferentemente. Somos até qualificados como pessoas “démodé”, retrógradas, fora da moda!
Nesse espaço social, com toda sorte de determinações, se encontram as maiores dificuldades dos cristãos e das pessoas de boa vontade que aceitaram a missão de “estar no mundo sem ser do mundo” (Rom. 12, 2) ou de fazer dele um espaço do diálogo, do encontro, do exercício da liberdade, do processo de autodeterminação e, certamente, um planeta bom para todos, sem tantos comandos e submissões.
A realidade que se impõe em forma de tanta exploração do “homem pelo homem” e as injustiças constatadas que daí resultam nos constrangem, mas como cristãos decididos também somos convocados a assumir atitudes diferenciadas e redentoras. O que fazer, por exemplo, com tantas pessoas que não têm onde morar, o que vestir, o que comer, nem condições de pensar; que se acabam lentamente em profundas inanições física, moral, educacional e psicológica; que são sugadas pela escravidão camuflada ou explícita ou que se enterram no insondável inferno das drogas e da violência?
Os lamentos de angústia e os gemidos inexprimíveis certamente nos incomodam, mas silenciar ou fazer de conta que a dor não é nossa, exala um vergonhoso cheiro de covardia ou que o “amai-vos uns aos outros” (Jo. 13, 34) se refere somente ao nosso grupo social e amigo! Por outro lado, lutar contra o poderosamente estabelecido nos amedronta...
Não bastando o medo, ainda experimentamos a desconfortável sensação de que estamos sozinhos contra o mundo. Creio que é por esse motivo que Jesus nos promete uma paz diferente daquela que o mundo nos oferece, aquela que é o resultado da colheita dos frutos da justiça e não da dominação. Essa colheita só pode ser realizada após enfrentar as dificuldades de plantio em terras viciadas ou com as ervas daninhas dos interesses mesquinhos e manipuladores. Empenhar-se pela implantação da justiça exige dedicação, testemunho, sacrifício, constante coragem. Coragem na expressão exata da palavra: “agir com o coração”, mesmo que a lógica social atual nos diga outra coisa.. É entrega pra valer. Aos que se arriscam, Jesus garante as bem-aventuranças: “quando vos caluniarem, vos perseguirem e disserem todo o mal contra vós ... (Mt. 5, 11)”. Se chegarmos a esse ponto é porque estamos realmente comprometidos!
Fico a matutar, como caboclo que sou, que a nossa atitude deva ser a mesma dos apóstolos pescadores que lançaram as redes ao mar a noite toda sem nada conseguir pegar e, no auge do desânimo, ouviram a voz do conhecido. mas não reconhecido Jesus que ordenou que fizessem mais uma tentativa (Jo. 21, 4-6).
Que estranha e ousada missão é a nossa. O Salmo 73(72) que retrata o mistério da prosperidade dos maus e de nossa insatisfação diante das contradições, escancara bem a revolta que sentimos. Mas nós, que depositamos nossa confiança no Senhor Jesus, apesar dos pesares, continuaremos a lançar as redes!
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