Postagens

REFAZER O COTIDIANO

REFAZER O COTIDIANO: UMA OUSADIA! João J. C. Sampaio Estamos assistindo, com preocupação, a violência tomando conta de nossas vidas. São os assaltos corriqueiros das ruas, as invasões domiciliares, os telefonemas dos presídios, os sequestros relâmpagos ou intermináveis, os roubos aos bancos e caixas eletrônicos, os empréstimos com juros exorbitantes, as promessas das loterias, as apropriações vergonhosas dos colarinhos brancos que não sabem onde enfiar tanto dinheiro com cheiro de suor e sangue dos trabalhadores deste País e outras tantas surpresas assustadoras. As tragédias do cotidiano também nos tornam violentos porque imaginamos que os outros estão de olho em nós ou parecem ter a nosso respeito segundas intenções. O outro não é nosso amigo, é perigo que nos ronda. A clausura de algumas ordens religiosas passou a ser a nossa: não saímos de casa, engolimos mais medo com a mídia ávida de notícias impactantes, nos afundamos em relacionamentos virtuais que camuflam seguranças e busc...

CEVAS & ARAPUCAS

  CEVAS & ARAPUCAS.     João J. C. Sampaio     Nos meus idos primaveris, como qualquer criança de roça desse tempo, um dos prazeres era construir arapucas para caçar passarinhos. Escolhia um lugar para cevá-los e lá instalava o instrumento de captura, mas sem a armadilha fatal. Para que eles não desconfiassem de minhas reais intenções, espalhava muita comida ao redor e dentro da arapuca até que se acostumassem. Depois de algum tempo, acionava a armadilha e os capturava facilmente.   As cevas são estratégias antigas para apanhar os animais desatentos e famintos. Interessante é que elas ainda permanecem atuantes, com outros atrativos, mas para apanhar seres humanos distraídos ou pouco pensantes. Há certos produtos no mercado, por exemplo, que conseguiram cevar e apanhar os seus consumidores. São produtos de marcas famo...

BATISMO: RITUAL OU COMPROMISSO?

   BATISMO: RITUAL OU COMPROMISSO?                                                                          João J. C. Sampaio         A nossa mentalidade cristã ainda se mistura com um mundo mágico, com fatos que devem acontecer de um momento para outro ao sabor de nossa vontade. Nesse contexto miraculoso, o ritual ocupa o centro de nossas preocupações. Acreditamos que, pela força do rito com suas palavras, tudo possa mudar em nossa vida num piscar de olhos. Temos, inclusive, a tentação de manipular ritualmente o próprio Deus, insistindo que Ele seja rápido em suas ações com respeito aos nossos desejos. Essa mentalidade cria em nossas vidas as denominadas falsas seguranças , pois afirmamos estar tranquilos porque fomos batizados, fizemos a primeira comunhão, casamos na Ig...

CORPUS CHRISTI: MEMORIAL DA PARTILHA.

  CORPUS CHRISTI: MEMORIAL DA PARTILHA.   João J. C. Sampaio                               Nós temos plena consciência da necessidade e do valor dos alimentos para as nossas vidas. Sem comida na mesa nossos corpos definham e podemos perecer por inanição. Na expressão rotineira de nossa gente: “saco vazio não para em pé!” Regra geral, é ao redor da mesa que celebramos a vida partilhada e, em momentos especiais, uma mesa farta se torna o centro da festa.                             Na Páscoa judaica, a mesa é posta com o cordeiro, o pão ázimo e as ervas amargas. Com a posse da Terra prometida também recebeu uma jarra de vin...

ESPÍRITO DIVINO E A NOVA CRIAÇÃO

  ESPÍRITO DIVINO E A NOVA CRIAÇÃO   João J. C. Sampaio   Celebramos na festa de PENTECOSTES a inimaginável generosidade de nosso Deus que decidiu fazer em cada um de nós o seu próprio templo. O Apóstolo Paulo, em sua primeira Carta aos Coríntios proclamou que “NÓS SOMOS O TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO”. Ele faz parte de nossas vidas e mora conosco (I Cor. 6, 19-20). O livro do Gênesis nos recorda que “NO PRINCÍPIO O ESPÍRITO DE DEUS PAIRAVA SOBRE AS ÁGUAS” (Gn. 1, 2) e que na segunda narrativa da criação Deus nos criou do barro da terra e “SOPROU” sobre nós o seu Espírito, o hálito da vida (Gn. 2, 7). Sabemos que não fomos capazes de corresponder a esse insondável gesto amoroso, de modo que, muito tempo depois, o mesmo Espírito Santo comunica à jovem Maria de Nazaré que dela nascerá Aquele que nos reconciliará com o Deus Criador.   O Evangelho de João apresenta uma narrativ...

NUVENS QUE ENCOBREM...

NUVENS QUE ENCOBREM... João J. C. Sampaio. A ascensão faz parte do sonho humano. Nos inícios do Cristianismo, muitas pessoas se embrenharam por lugares ermos na busca da ascese, de um contato mais íntimo com Deus. Acreditavam que se afastando do mundo e dos seus feitiços encontrariam a santificação de suas vidas. A Igreja reconheceu em algumas dessas experiências valores inestimáveis e exemplos de virtude. No contexto atual também se fala em ascese, mas na voluptuosa gula de conquistar espaços quase inatingíveis ou, simplesmente, subir na vida e estar acima dos outros. O capitalismo cristalizou em nós o desejo irresistível de aproveitar o máximo do que o seu sistema produz, o que servilmente respeitamos. A isso ligamos a ascensão social, a apropriação de postos mais elevados no trabalho, o estar em evidência aos olhos dos semelhantes, visível na mídia, ser endeusado ou invejado pelos que aspiram o mesmo altar ou o mesmo incenso. Para narcisistas, não galgar esses degraus chega a ser si...

MÃE, VOCÊ É PRECIOSA E SEM PREÇO!

MÃE, VOCÊ É PRECIOSA E SEM PREÇO! João J. C. Sampaio Nossas idolatrias movem o mundo. Entre tantos objetos de adoração o dinheiro parece arrebatar o primeiro lugar na preferência. Lutamos tanto pela sua aquisição que a maior parte de nosso tempo é a ele dedicado. Aceitamos ser medidos em importância pela quantia que acumulamos. Esse modo de proceder resultou em uma sociedade cada vez mais gananciosa, competitiva, exploradora, individualista, injusta e de pouca partilha. A qualidade de vida é confundida com a maior capacidade de consumo Desse processo ninguém escapa e, até nós cristãos, que dizemos acreditar na Providência Divina, “no pão nosso de cada dia nos dai hoje”, preferimos depositar a nossa fé no poder econômico que parece sugerir mais segurança. Sei que precisamos dos bens e que há necessidade de lutar por eles, mas sem torna-los absolutos. Apesar dessa postura comum entre nós, ainda encontramos pessoas que insistem em afirmar que os elementos mais significativos da vida não ...

BOLO COM RECHEIO DE SAUDADES!

BOLO COM RECHEIO DE SAUDADES! Dedicado a todos(as) que já ingressaram nos anos “enta” = 40, 50, etc... João J. C. Sampaio A nossa língua portuguesa é mesmo surpreendente, pois em uma só palavra pode esconder um punhado de significados. Entre esses vocábulos se encontra o bolo, palavra que sugere coisa gostosa, barriga cheia, aniversário, casamento, alegria, festa, recheios, sabores e muito mais... Há até quem jure de pés juntos, que um bispo de Botucatu, ao visitar uma paróquia, no momento da distribuição da comunhão em uma das missas, viu tanta gente correndo para comunhar primeiro, que gritou com a hóstia na mão: “Olha o bolo! Olha o bolo!” Evidentemente, não queria dizer que a hóstia fosse o bolo, mas sim aquela gente amontoada, de modo desorganizado. Em tempos pouco passados, se usava a expressão “deu bolo” para falar de um final inesperado ou que virou em nada, mais ou menos como expressamos “acabou em pizza!” Também quando tentamos explicar alguma receita e não somos bem sucedid...

PARTIR É PRECISO!

PARTIR É PRECISO! João J. C. Sampaio Parece ser inerente à condição humana se colocar em posição de partida. Nós já fizemos essa experiência algumas vezes, mesmo sem perceber. Começamos por deixar a nossa infância, o grupo escolar, as brincadeiras de criança, a adolescência das mil-e-uma indagações, a juventude (no meu caso) e tantas outras coisas pelo caminho da existência. Deixamos até a nossa família, o lugar privilegiado da convivência, de onde jamais pensamos sair. Nem todo amor de nossos pais e as suas carinhosas asas protetoras, foram suficientes para barrar os incontroláveis impulsos de voos e de sonhos! Nossos pais também fizeram a opção pela partida ou partidas. Partir, apesar da dor da separação e dos riscos, é preciso. Todos, com raras exceções, vivenciaremos esses momentos cruciais. São decisões radicalmente vitais que nos levaram a campear novos rumos, no desejo ardente de ser feliz. Até nascemos com os pés em posição de partida, na sugestiva busca do novo, para abrir m...

SE TODOS FOSSEM COMO EU

SE TODOS FOSSEM COMO EU... João J. C. Sampaio Há uma doença grave que tomou conta do planeta e vem fazendo milhões de vítimas. É um vírus resistente e renitente. Está presente em todas as camadas sociais e não escolhe raça, cor, idade, sexo, ou preferências políticas e de credo. Não deveria, mas os seus sintomas são detectados com facilidade nas comunidades religiosas que, regra geral, quase tudo justificam “em nome de Deus”! Tal inoculação viral leva as pessoas a se julgarem as melhores, as perfeitas, a estufarem o peito gabando de si mesmas; a ocuparem os primeiros lugares e os espaços estratégicos para que outros não entrem; a se proclamarem como boas a ponto de falsearem o direito e a justiça. Em resumo: aceitam Deus cuidando do céu, desde que elas comandem a terra! Aliás, se consideram autossuficientes, não escutam ou fazem de conta que escutam, se acham as mais preparadas, pensam que são infalíveis, até se debulham em orações impressionantes (Lc. 18, 9-14) e, frequentemente, se ...

DA DESILUSÃO A AÇÃO

DA DESILUSÃO À AÇÃO... João J. C. Sampaio O tempo pascal nos revela que na aparente fragilidade do Cristo Sofredor se encontra a manifestação do poder de Deus. É muito doloroso vivenciar a sexta-feira santa com tantas e tão profundas decepções. Afinal, as esperanças que tínhamos em um mundo melhor, com mais segurança, com expectativas de vida abundante, realizações e outras benesses, entraram pelo ralo das desilusões... Esses eram alguns dos sentimentos dos apóstolos, dos discípulos, da mãe Maria e das mulheres que acompanharam Jesus em suas andanças benfazejas. Os discípulos de Emaús que voltavam acabrunhados para o seu vilarejo demonstram bem esse contexto de derrota! O evangelista Lucas descreve a decepção desses discípulos e, ao mesmo tempo, o espanto deles ao encontrarem no caminho um homem aparentemente desligado dos últimos acontecimentos ocorridos na cidade de Jerusalém... (Lc. 24, 13-33). De fato, as coisas se complicam e o mundo parece desabar sobre nossas cabeças quando, d...

SHALOM!

SHALOM! SHALOM! João J. C. Sampaio Se há algo que realmente imploramos e desejamos é viver em paz; paz que transborda de felicidade o nosso interior e promove a alegria benfazeja do relacionamento humano. O que o mundo nos oferece é a promessa de felicidade e bem estar, mas exige em troca muita labuta e submissão. Costumamos mergulhar de cabeça na conquista de certos ideais que logo nos cansam e enfadam porque as propagandas que nos agridem afirmam que estamos desatualizados com a última moda lançada em qualquer capital famosa do planeta. A habilidosa sociedade capitalista não nos permite momentos de repouso. Comanda as nossas cabeças e as nossas vontades o tempo todo, não nos permite viver em paz e nos instiga a trabalhar sempre mais para comprar o novo que se exibe nas vitrines sugestivas dos mercados dos desejos! Se não o adquiro logo na primeira oferta, acabo levando na liquidação com a sensação de ter feito um “negócio da China”. Caindo nessa arapuca, jamais teremos paz conosco me...

ANIQUILOU-SE...

ANIQUILOU-SE... João J. C. Sampaio Infelizmente participamos, sem nenhum ou pouco escrúpulo, do ingrato mundo das desculpas e do comodismo. Quando somos convidados a nos comprometer com algo essencial, mais decisivo, importante ou que simplesmente nos tome mais tempo, regra geral apresentamos mil-e-uma justificativas ou explicações, como fez o Apóstolo Pedro diante da criada, no pátio da casa do sumo sacerdote... (Mt. 26, 69-75) Nós estamos ao lado, a favor, juramos fidelidade, dizemos que não abrimos mão, reafirmamos nosso compromisso desde que não exijam a nossa efetiva participação... Nesta Semana que apropriadamente a chamamos de Santa, vamos avaliar a nossa missão comparando-a com a do Mestre Jesus que foi aclamado com hosanas em sua entrada triunfal em Jerusalém, mas em seguida se viu envolvido nas tramas impiedosas do poder reinante. Sentiu no corpo e na alma o significado da incompreensão, do sofrimento, da solidão, da traição humilhante até de seus amigos mais chegados! Fo...

"É JESUS, O PROFETA DE NAZARÉ..."

“É Jesus, o Profeta de Nazaré...” João J. C. Sampaio Jesus, finalmente, decidiu entrar solenemente no centro mais importante do mundo religioso judaico. Depois de viver na pequenina e desconhecida Nazaré, de bater pesado no serviço de carpinteiro, de iniciar a sua missão pela menosprezada Galileia, agora se prepara para o desfecho de sua obra redentora. Vai para a cidade de Jerusalém, local reconhecido como concentrador do poder político, econômico e religioso do país, onde estavam instaladas as mais resistentes raízes das injustiças que afligiam o povo. Havia chegado a hora do afrontamento. Todos os Evangelhos mencionam que Jesus teve uma atitude inesperada ao aproximar-se de Jerusalém (Mt. 21, 1-11; Mc. 11, 1-11; Lc. 19, 28-48; Jo. 12, 12-19): Ele quis entrar na cidade montado em um jumentinho. Certamente, havia mais gente chegando e saindo da cidade nessa montaria tão comum na época. Mas, mesmo assim, com Jesus tudo foi diferente. A sua entrada foi triunfal, entre aclamações de ...

CULTURA DO ÓDIO

CULTURA DO ÓDIO João J. C. Sampaio A humanidade deseja, ardentemente, construir a sua história com os resistentes tijolos da paz, amalgamados com a excelente argamassa da solidariedade, mas, mesmo assim vive sofrendo constantes abalos sísmicos em suas bases relacionais, comprovando que ainda não sabe dominar os seus impulsos de agressividade. É inacreditável que, como por encanto, ódios e rancores se irrompam poderosos, colocando abaixo anos, décadas ou séculos de construção. Mais: como é possível que o ser humano não tenha aprendido com os horrores de tantos conflitos e ainda permaneça em estado de beligerância! Que teimosia! Os conflitos, porém, não se desenvolvem apenas em amplos níveis, mas se desencadeiam em qualquer espaço onde se encontre o ser humano com os seus interesses e paixões. Não escapam dessa rede de intrigas as piedosas comunidades eclesiais, nem as famílias consideradas perfeitas. Não se entende como o ódio e seus derivados se assenhoreiam de nossas vidas colocando...