NUVENS QUE ENCOBREM...
NUVENS QUE ENCOBREM...
João J. C. Sampaio.
A ascensão faz parte do sonho humano. Nos inícios do Cristianismo, muitas pessoas se embrenharam por lugares ermos na busca da ascese, de um contato mais íntimo com Deus. Acreditavam que se afastando do mundo e dos seus feitiços encontrariam a santificação de suas vidas. A Igreja reconheceu em algumas dessas experiências valores inestimáveis e exemplos de virtude.
No contexto atual também se fala em ascese, mas na voluptuosa gula de conquistar espaços quase inatingíveis ou, simplesmente, subir na vida e estar acima dos outros. O capitalismo cristalizou em nós o desejo irresistível de aproveitar o máximo do que o seu sistema produz, o que servilmente respeitamos. A isso ligamos a ascensão social, a apropriação de postos mais elevados no trabalho, o estar em evidência aos olhos dos semelhantes, visível na mídia, ser endeusado ou invejado pelos que aspiram o mesmo altar ou o mesmo incenso. Para narcisistas, não galgar esses degraus chega a ser sinônimo de fracasso.
Ao celebrarmos a Ascensão do Senhor Jesus (Lc. 24, 46-53 - At. 1, 1-11) aprendemos outro modo de encarar a existência. Jesus se encaminha ao Pai, mas os Apóstolos continuarão a pisar o chão da vida com a sua realidade nua e crua. Embora os seus olhares estivessem fitando o céu na ânsia do definitivo, é no “aqui e no agora” que a missão deverá se realizar. Neste contexto de realidade não se admitirá mais a tática de fugir do mundo para se santificar, ao contrário, já estamos sendo convidados a um profundo engajamento para transformá-lo. Não há outra opção senão colocar a mão na massa, nela acrescentando a nós mesmos nas formas de fermento, sal e luz. A ordem é entrar na massa, fazê-la crescer e torná-la excelente.
Sabemos que falar é fácil e não desgasta a língua, mas colocar-se a caminho, iniciar a construção, fazer valer o que se acredita é mais complicado. Os Apóstolos, enquanto contemplavam o Senhor Jesus que subia, ainda mantinham alguma segurança, mas na hora que “uma nuvem O encobriu”, desaparecendo aos seus olhos, decidiram pela atitude mais conveniente: retornar ao lugar seguro do cenáculo (At. 1, 13). Sabemos que eram perseverantes na oração, mas por medo dos chefes judaicos estavam protelando o cumprimento do “Ide...” ordenado pelo Senhor e Mestre Jesus. Seria bem melhor se não aparecessem nuvens que encobrissem a nossa contemplação, nem buracos nas estradas que atrapalhassem nossos passos e problemas que perturbassem a nossa vida. Seria a presença do paraíso tão sonhado, mas a nossa missão se encontra justamente na ousadia de reconstruí-lo.
A tarefa é exigente e consiste em realizar o nosso crescimento e o crescimento dos outros. Assim não estaremos fugindo da raia nem criando privilégios, mas elevando a todos a atingirem a estatura do próprio Jesus cuja missão foi unicamente servir. Aconselhou o Mestre: “Quem quiser ser o maior seja o menor e o servidor de todos...” (Mc. 10, 43-45), caso contrário podemos cair na tentação de exaltar a nós mesmos e sermos humilhados pelo Senhor da Vida (Lc. 18, 14).
Olhar para o céu nos faz bem, mas torná-lo presente no “aqui e agora” de nossas vidas é o que mais desejamos.
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