CEVAS & ARAPUCAS

 CEVAS & ARAPUCAS.

 

  João J. C. Sampaio

 

  Nos meus idos primaveris, como qualquer criança de roça desse tempo, um dos prazeres era construir arapucas para caçar passarinhos. Escolhia um lugar para cevá-los e lá instalava o instrumento de captura, mas sem a armadilha fatal. Para que eles não desconfiassem de minhas reais intenções, espalhava muita comida ao redor e dentro da arapuca até que se acostumassem. Depois de algum tempo, acionava a armadilha e os capturava facilmente.

  As cevas são estratégias antigas para apanhar os animais desatentos e famintos. Interessante é que elas ainda permanecem atuantes, com outros atrativos, mas para apanhar seres humanos distraídos ou pouco pensantes. Há certos produtos no mercado, por exemplo, que conseguiram cevar e apanhar os seus consumidores. São produtos de marcas famosas. Os criadores de tais marcas dizem que conquistaram um nicho de mercado, mas poderiam afirmar que são detentores de uma bela ceva! Para garantirem a posse, continuam a nos cansar com propagandas intermináveis. Agem desse modo para não perderem o lugar para outros cevadores. Assim, somos procurados por religiosos de credos diferentes, por políticos com promessas mirabolantes e por tantos outros que querem tirar proveito de nossa ignorância ou boa fé.

 

  O que surpreende é que as Sagradas Escrituras também nos alertam a esse respeito. Um exemplo esclarecedor é do apóstolo Tiago, que não usou a palavra ceva, mas de algo semelhante, o costume de engordar porcos. A engorda, regra geral, ocorre em lugar pequeno onde esses animais comem, bebem, dormem e pouco se movimentam. Não precisam fazer nenhum esforço, pois tudo lhes é servido. Um vidão! O que não sabem é que estão sendo preparados para o dia da matança... O Apóstolo, nesse texto, está fazendo uma dura crítica aos ricos que constroem as suas cevas, aprisionam os pobres em uma vida sem perspectivas, não pagam salários dignos, os mantém na ignorância, vivem à custa de seu trabalho e ainda se acham dotados de poderes para julgar e condenar esses inocentes (Tg. 5, 4-6).

 

  A ceva, porém, com a armadilha montada para os pobres e incautos pode se voltar contra os próprios opressores. Como estes são temidos, mas não amados nem respeitados, vivem inseguros, com medo de alguma represália por parte dos pequenos e explorados. Assim, os ricos e poderosos se fecham em seus condomínios e mansões comendo e bebendo do bom e do melhor, também engordando como porcos para o dia do banquete da ira divina. Notemos que os porcos eram considerados animais impuros (Lv. 11, 7) no ambiente judaico...

 

  A inconformidade do apóstolo Tiago é também a nossa. As suas palavras parecem dirigir-se para o aqui e o agora. Elas são duras como o sofrimento dos que foram excluídos da convivência humana. O Mestre Jesus reforçou as palavras de seu Apóstolo, solicitando, que seus seguidores não sejam jamais pedras de tropeço, armadilhas para os pés dos pequeninos (Mc. 9, 42-43). Deus não compactua com a injustiça e com os que a praticam. É por isso que Ele jamais deixou de suscitar profetas destemidos no meio de seu povo (Nm. 11, 28-29), que não se calarão diante dos desmandos.

 

  Mesmo entendendo tudo isso, no entanto, mais cevas e arapucas continuam sendo preparadas por nós, entre nós ou pela sociedade atual na ânsia de fama, vaidade, poder, votos, acúmulo de riquezas e outros dividendos.

 

  Nós, porém, que aceitamos a proposta de Jesus na busca da implantação da justiça e da fraternidade, atuaremos como críticos ou demolidores dessas armadilhas para que os caminhos sejam mais planos e seguros para todos.

 

  Que as arapucas e cevas sejam trocadas pelos nossos gestos sem segundas intenções, por palavras com verdade, por atitudes amorosas, acolhedoras e solidárias. 

Comentários

  1. Parabéns, meu amigo João Sampaio! Texto lindo e ilustrativo. Em quantas arapucas e cevas estamos sujeitos a cair. No comércio, na religião, na política, em tantas outras coisas, sempre há alguém pronto a nós iludir. Não são apenas aves e animais, o homem mais desavisado , constantemente, cai em armadilhas.

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