“O QUE EU CORTO, CHICO?”
“O QUE EU CORTO, CHICO?”
João J. C. Sampaio
Na minha infância, a medicina dos pobres passava pelos curandeiros com suas rezas, gestos considerados sagrados, defumatórios, instrumentos vários, ervas, flores, frutos, raízes e outras benesses da natureza. Tudo herdado na universidade dos antepassados. Eram poucos os que conseguiam um diploma da fama. Além da gratuidade, o tratamento costumava ser bem mais humano. Essas pessoas dotadas de crenças, confirmadas pelo testemunho de tantos ou pelo imaginário popular, não padeceram com o estresse de médicos de postos de saúde abarrotados de doentes ou de hipocondríacos, os viciados em doenças.
Não estou aqui para louvar ou criticar essa gente que guardava uma receita para cada doença, mas para voltar ao tempo dos sustos e encantamentos infantis, quando a minha mãe ou as mães de tantas crianças da época, íam em busca de solução dos dramas cotidianos. Vou relatar um fato, ligado a tantos outros, que aconteceu comigo e meus irmãos. Vamos juntos fazer uma visitinha ao tio Chico Calaça e à tia Nita Adriano, sua esposa, moradores de um casebre coberto com sapé e chão batido, no bairro da Laranja Azeda, município de Cesário Lange (SP.), que na época ainda era a Vila de Passa Três...
Esses tios, de segundo grau, eram os gurus da saúde pública do bairro e adjacências. Gente boa, de olhar inocente e submisso sobre a vida; uma vida que se escoava lentamente nas prosas intermináveis sobre a roça, criação de animais, ervas curativas e os causos (leia-se estórias) para rir ou chorar. Tudo minuciosamente relatado como nos antigos tempos da tradição oral. Mas, vamos ao que interessa!
“Virava ou mexia” (expressão comum daquele tempo), lá estava minha mãe com seus filhos proseando com o tio Chico e a tia Nita, todos sentados em tripeças baixas. Nessa ocasião, não sei do que padecia a mana Margarida: andava choramingando, não dormia bem e, por vezes, se contorcia em dores. Quem sabe estivesse com o “bucho virado”, um diagnóstico comum de nossa gente. Nesse dia, decidiram nossos tios curandeiros, que bastava colocar três brasas numa caneca com água e verificar se elas boiariam ou se afundariam. Levantou-se a tia Nita, já se arrastando pela idade e foi para a beirada do fogão de lenha onde brasas avermelhadas brotavam dos galhos secos catados nas imediações do rancho. Ela pegou uma caneca com água, uma colher amassada e retirou umas brasas do fogão. Escolheu a primeira brasa, soprou o excesso de cinzas e perguntou ao tio Chico que estava enrolando um cigarro de palha: – “O que eu corto, Chico?”. A resposta veio sem pestanejar: - “Lombriga, susto e quebranto!”. Retornou a tia Nita: “De quem, Chico?”. Com toda a seriedade existente no planeta, respondeu: “Da Maria Margarida!”. - “Então, corto Chico?” insistiu a tia. - “Corte!”, finalisou ele. – “Isso memo, eu corto!”, confirmou a tia e colocou a brasa na água que frigiu com o contato. Assim foram três sucessivos diálogos com as respectivas brasas.
Para surpresa de todos nós, as três brasas, agora carvões, chegaram ao fundo da caneca! A coisa estava mesmo séria para o lado da Margarida que, depois de tomar daquela água benzida, voltou mais alegrinha para a casa. Para não perder a viagem, nós também tomamos um pouco da água que sobrou, afinal a medicina preventiva alimenta a saúde. Segundo o JOÃO MARCIANO, leia-se JOÃO RIBEIRO DA SILVA, um vizinho nosso que aparentava ter estudos, definia que essa água era muito boa para curar dor de barriga e diarréias porque continha o elemento químico “Carbono”.
Assim, não sei quantas vezes lá voltamos para esse ritual de cura e purificação e também para nos tornarmos fortes contra os maus-olhados, as traiçoeiras cobras e outros peçonhentos! Experimentamos ainda de outros rituais, como passar por cima do machado ou da foice para cortar encrencas mais sérias, mas deixemos isso para outro dia...
Difícil é não ter saudades desses tempos, que bem ou mal, resolvíamos os nossos problemas. Hoje, com todas as tecnologias e manias hipocondríacas, nos empanturramos com medicamentos inócuos que nos viciam e esvaziam os nossos bolsos. Quem sabe umas brasas numa caneca d´água resolvessem parte dos problemas. O prefeito e a secretaria da saúde da minha terrinha iriam agradecer!
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