MEU FUTEBOL E MEU DEUS!

 MEU FUTEBOL E MEU DEUS!

 

  João J. C. Sampaio

  

                           Nos meus tempos de adolescente e juventude fui um torcedor inveterado. Sofria amargamente com as derrotas do time de minha preferência e ainda tinha de suportar as chateações dos companheiros que descarregavam sobre mim os seus próprios fracassos de torcedores. Compensava também as minhas frustrações quando outros times perdiam... Dizem que chumbo trocado dói menos!

                                 Mas, a medida de meu sofrimento foi também a de meu crescimento. Muito devagar fui percebendo que uma nova visão do esporte futebol precisava nascer em mim. Passei a desconfiar de que não valia a pena viver com o humor baseado nas vitórias ou derrotas de um time que nem sabia se eu existia. Não compensava sofrer ou me alegrar com motivações que nada acrescentavam ao meu existencial. Minha vida necessitava de fundamentos mais sérios, sólidos e vitais...

                                 Assim, passei a me incomodar em estar comprometido com o “time do coração”, ainda que fosse um mero torcedor. Comecei a ler e a pensar no valor e nos problemas de um esporte tão querido. Vi que o esporte é benéfico à saúde, realiza um significativo trabalho de inclusão, mas que também é usado para alimentar a riqueza de poucos privilegiados que tem em suas mãos uma grandiosa mina de ouro. Os donos de clubes compram jogadores escolhidos a dedo como se compram bois ou cavalos de raça das melhores invernadas. Alguns jogadores recebem fortunas e muitos outros penam para receber seus salários. Chegamos ao ponto encontrar times milionários cujos proprietários são donos do petróleo. Enfim, fiquei preocupado em estar compactuando com essa situação. O time não é meu e ainda morro por ele! Isso sem contar uma incontável multidão que, mesmo pobres, se sacrificam para ver um jogo de futebol. Toda essa situação me pareceu injusta.

            Na verdade, a busca da riqueza gerada por esse mundo lúdico chega a ser o sonho mais profundo de milhares de adolescentes e jovens, que acreditam passar da noite para o dia da condição de pobres ao mundo encantado do sucesso. Para ampliar a fascinação, essa atividade parecia não exigir nada mais que jogar bola com destreza... Preparação para a vida, estudos ou outras exigências prá quê? Uma prova dessa carência se encontra em algumas estéreis entrevistas concedidas por parte dos jogadores... O comediante Chico Anísio cristalizou a figura desse nosso futebolista no impagável personagem Coalhada que falava, falava e não dizia nada! Lembra-se? Agora já ouvimoa falas melhores, embora sejam as mesmas de sempre.

                O mais lamentável é que grande parcela dos milhões que entram nas bilheterias dos estádios também saem dos bolsos mais rotos, das pessoas mais pobres, dos que vivem nas situações mais precárias. Aparentemente, a massa de torcedores é de pessoas felizes, de bem com a vida, sem problemas, cuja única angústia é a derrota do time do coração. Na verdade, nos seus gritos de raiva ou de alegria vão os desabafos dos seus constantes fracassos e desapontamentos diante de uma existência injusta e desumana. Para diminuir, momentaneamente as angústias aí também se encontram as betz que esvaziam ainda mais os bolsos na expectativa da sorte grande! O que seria de nossos governos sem as loterias da ilusão? Claro que a religião, nas suas mais diversas formas, aí também está presente. É a tal famosa “fezinha” que me alimenta durante algum tempo e depois me joga na fossa da decepção. Isso, sem comentar o contexto de nossas idolatrias! No futebol somos idólatras um tanto irritados...

                                  Evidentemente que as nossas autoridades estão tranquilas, pois enquanto parcela dos cidadãos vibram com os seus times, apostam nas betz, esquecem as desgraças que caem sobre as suas cabeças. Para o bem de nossos governantes e a manutenção da riqueza de poucos, os circos precisam continuar armados...

                                  Mas, por favor, não entenda que estou contra o futebol, contra os esportes ou contra os apaixonados torcedores. Eu lamento, sim, que os esportes, os torcedores e até os jogadores sejam usados para garantir mais riquezas dos poucos privilegiados. Lamento ainda os exageros, a violência entre torcedores; o desequilíbrio de nossas emoções e a nossa submissão como adoradores de ídolos que nada ou pouco acrescentam em nossas vidas.

                            Na verdade, gostaria que pensássemos no que fazer para tornar os esportes uma ajuda mais efetiva para a vida saudável e não uma fonte de decepções e explorações.


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