O PECADO DA ENCHENTE
O PECADO DA ENCHENTE
João J. C. Sampaio
As chuvas de verão são numerosas e, às vezes, torrenciais. Com a chegada da calorosa estação vamos ouvir, com frequência, notícias sobre enchentes, desmoronamentos e desabrigados por toda parte. Ainda mais: gente perdendo tudo que conquistou à duras penas ou morrendo afogada no arrastão impiedoso das fortes correntezas.
Sabemos que a natureza tem os seus caprichos e nos surpreende até com o impensável, mas muitas dessas catástrofes poderiam ser evitadas se nós, seres humanos, considerados inteligentes, tivéssemos atitudes mais responsáveis, convenientes e lógicas. É lamentável afirmar, mas também nós somos culpados por uma série de desgraças que assolam nossas cidades e o nosso País.
Sei que o assunto é de grande amplitude, tem a ver com atitudes governamentais globais, que passa necessariamente pela educação, por um nível de consciência mais elevado, mas vamos fazer um trajeto mais simples, aquele que pode ser compreendido por qualquer um que tenha um mínimo de boa vontade. Quando bebemos nossa cervejinha ou refrigerante e, sem cerimônia, atiramos as latinhas na rua, não estamos ajudando os catadores de reciclados, como alguns justificam, mas demonstramos uma total incapacidade de pensar no comunitário e nas consequências advindas desse gesto repetido à exaustão. Nesse caso, desprezamos todos os que habitam a casa comum, que é a cidade, e os catadores, que são tratados como inferiores, que vivem dos restos de uma sociedade injusta e mal educada.
Seguindo o mesmo raciocínio da insensibilidade, também lançamos nas ruas papéis, jornais velhos, sacos plásticos, garrafas pets, restos de cigarro e seus invólucros, entulhos e toda a sorte de lixo que não queremos em nossa casa. O estranho é que não nos importamos em dividir com os nossos vizinhos toda essa sujeira!
Aí caem as chuvas abundantes e os bueiros que só bebem água, acabam engasgados com o lixo de nossa irresponsabilidade. Isso vem se repetindo há anos e ainda não criamos juízo! Novamente, algumas famílias perdem tudo o que adquiriram com tanto esforço, quando não ficam com dívidas porque ainda estão pagando as prestações. E as que perdem familiares nas enchentes?
Tudo isso poderia ser evitado se tivéssemos um pouco de consciência, se fôssemos educados, plenos de espírito comunitário, tementes a Deus e religiosos de verdade! Penso que o verdadeiro religioso se propõe a ter atitudes mais comprometidas, atitudes que vão além da obrigatoriedade e do cumprimento das leis.
Ainda não ouvi pregações que alertassem sobre o pecado de se jogar lixo na rua. Pode acreditar, meu irmão, minha irmã, é pecado sim! E muito grave porque estamos contribuindo, ainda que indiretamente, com o acúmulo das enxurradas, com as casas que são inundadas, com os objetos que são perdidos, com a morte de algumas pessoas, com a desilusão de irmãos que descobrem que anos de trabalho e de economias também foram para o lixo.
Tem mais: além do gesto bandido, há outro pecado embutido nesse modo mal educado de proceder que é a nossa eterna preguiça de fazer a coisa certa. Como já nos conhecemos como adeptos da lei do menor esforço, é urgente e necessário que tenhamos uma constante atenção sobre nós mesmos. Não se trata de um autopoliciamento, mas de compreensão sobre a importância da coisa pública, do bem comum e do prazer de se viver em uma cidade limpa com uma sociedade justa, que pensa no outro e respeita o outro. Uma cidade suja mostra a feiura dos próprios moradores!
Enfim, cada nova enchente deveria ser motivo de vergonha e de exame de consciência para todos nós. Pelo menos, ouçamos o conselho de nosso Mestre Jesus que pede que não façamos aos outros o que não gostaríamos que fizessem conosco (Mt. 7,12). Isso é o mínimo, mas já será um bom começo!
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