AGORA, PODE BEIJAR A NOIVA!
AGORA, PODE BEIJAR A NOIVA!
João J. C. Sampaio
Quanto mais vivo, mais intrigado fico. Percebo um pouco mais das manias de nosso espaço cultural e ao mesmo tempo vou remoendo, nem sempre em silêncio, uma porção de acontecimentos. Afirmam os mais ajuizados que “em bocas fechadas não entram moscas” ou não saem bobagens... Como nem sempre consigo me incluir entre os de mais juizo, ouso trazer à baila um costume que, segundo penso, já deveria ter desaparecido. Trata-se de um gesto machista que ainda marca profundamente a nossa sociedade.
Tenho visto em novelas e ouvido nas igrejas uma frase já famosa no ritual dos casamentos. Finda a cerimônia, após o “sim” do feliz casal, solenemente, o padre ou o pastor decreta: “Agora, pode beijar a noiva!” Normalmente, comento com os que estão ao meu lado que muitos padres e pastores ainda não deixaram o modo arcaico de pensar e que, para eles, o casamento não é nada mais que o acoplamento da mulher à vida do homem!
Descobri, com estudos, que os casamentos em muitas culturas foram arranjos consensuais entre famílias, acertos para unir riquezas ou heranças e, nesse imbróglio, as mulheres não passavam de propriedade ou moeda de troca dessas transações. Além do prazer sexual que ofereciam ao marido, deviam lhe gerar filhos, um sinal da força viril do poderoso macho! Em algumas sociedades, a mulher se tornava mais interessante se tivesse um bom dote e a família da menina tudo fazia para torná-la mais atraente. Lembra-se da novela “Caminho das Indias”? Esse costume foi sobejamente demonstrado.
Na sociedade hebraica, de onde bebemos muitos costumes, a mulher solteira era propriedade do pai e, quando casada, se tornava propriedade do marido (Dt. 22, 13ss.). Tinha ainda a obrigação de gerar filho “homem” para perpetuar o nome do marido (Lc. 20, 28-33). Se a mulher não fosse capaz de lhe gerar um filho, isso a deixava envergonhada diante dos seus familiares e vizinhos. Sequer se levava em conta se a esterilidade era do homem ou da mulher! Que tempos!
A nossa própria cultura usou e ainda usa o costume de acoplar o nome da família do marido no final do nome da esposa. É como se a mulher fosse uma mercadoria ou propriedade com a marca registrada do dono. Ainda bem que não se marcava com ferro em brasa! O atual Código Civil Brasileiro não mais obriga essa condição, porém, muitas famílias tem o hábito de assim proceder. Ainda presencio nas entradas solenes das noivas nas igrejas, normalmente conduzidas pelo pai, o insubstituível chefe da família, que faz a entrega da filha ao noivo! Já pensou no signifcado desse ritual? Parece estar ocorrendo mudança!
Ao se proclamar em alto e bom som “agora, pode beijar a noiva” o celebrante matrimonial está alimentando um pensamento machista de séculos, insistindo, ainda que inconscientemente, na idéia de que a esposa é inferior e posse do marido. Sorte dela se estiver se casando com um homem de bem ou rico, afirmam alguns!
Há mais um problema, essa proclamação é feita dentro dos templos religiosos, locais onde certas expressões recebem a legitimação do sagrado e, como em coisa sagrada não se toca ou dela não se duvida, os mais desavisados ou que pouco usam da racionalidade, acabam acreditando que tal declaração é a mais pura verdade!
Que responsabilidade tem os nossos ministros religiosos e certos juízes de cartórios matrimoniais! Nesse sentido, os mais diversos grupos religiosos com suas pregações machistas e discriminatórias prestam um desserviço à sociedade e causam dores terríveis no seio das famílias. Tudo em nome de Deus! Que prepotência!
Mas, não é só no espaço religioso que isso acontece. Na escola também aprendemos algo semelhante. Quando queriam valorizar alguma mulher ensinavam que “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher!”. Por que atrás, em segundo plano, no lugar que não aparece? Por que ela não pode estar ao lado dele e ele ao lado dela? Do mesmo modo, em vez de “agora, pode beijar a noiva!” por que não “podem se beijar” numa bela proclamação de igualdade humana?
O que consola é que começamos a acordar para uma série de atitudes mais racionais, justas e igualitárias, mas ainda estamos longe de banir tais discriminações! Basta verificar, por exemplo, em quantas cidades brasileiras encontramos uma delegacia da mulher, onde ela pode com segurança, reclamar de suas mazelas? Em todas? E os feminicídios que se multiplicam?
Lembro-me ainda de um senhor, já avançado em anos, que queria se casar porque: “lá em casa tem uns porquinhos, umas vaquinhas, uma criaçãozinha de galinhas, uns franguinhos e preciso de alguém que me dê uma mão...” Pois é, até os porquinhos, galinhas e vaquinhas justificam um casamento!
Não querendo ser mais desagradável, mas já sendo, conheço homens que até agora, em pleno século XXI, se orgulham porque se casaram com uma mulher boa em todos os sentidos: de cama, de tanque, de forno e de fogão!
Bem, se Você também pensa assim, então “agora, pode beijar a noiva” e, tomara que consiga ser feliz!
Verdade! Continuamos em pleno século XXI a deixar a mulher em segundo plano
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