FALAR AO CORAÇÃO

 

Falar ao Coração

 

  João J. C. Sampaio

 

                Estamos sofrendo com mais guerras, dessas que arrasam tudo, com armamentos de última geração capazes de matar em massa e à distância. Continuamos, apesar das dolorosas experiências anteriores, a nos conceder os diplomas de intolerância e de insanidade porque ainda não aprendemos a resolver nossas pendengas como seres racionais e dialogantes. Mas, não é só na guerra que habita a insensibilidade, ela se encontra todos os dias em nosso meio e, lamentavelmente, dentro de nossas casas, de nosso ambiente de trabalho, de nossas comunidades eclesiais e dentro de cada um nós.

Convivemos, sem dar conta de nossa insensatez, em constante irritação, em eterno estresse, com incontido rancor e desejo de dar o troco aos mais inexpressivos confrontos. Com atitudes tão intransigentes vamos nos desfigurando, sofrendo ainda mais e nos transformando em verdadeiros monstros.

Se constatamos essa realidade em nossas vidas, busquemos sem perda de tempo ações que revertam o processo de separação e de morte. Para isso é que vem em nosso socorro a CONVERSÃO. A conversão é o reconhecimento dos desatinos e a retomada das sendas que geram o encontro com o outro, conosco mesmos e com Deus.

                  A Escritura Sagrada, no desejo de nos fazer agir como gente, nos apresenta a pessoa de Oséias, o renomado profeta do amor, que nos comprova a fidelidade de nosso Deus, mesmo que a nossa infidelidade seja uma constante. A sua linguagem profética é de ternura e de conquista amorosa. Ele quer falar ao coração, reviver os tempos afetuosos da juventude... Oséias nos apresenta um Deus apaixonado, que quer se casar conosco de papel passado (Os. 2,16-17.21). O Salmista bíblico também proclama: “O Senhor é piedade e compaixão, lento para a cólera e cheio de amor” (Sl. 103/102). Essa imagem de um Deus todo ternura precisa fazer parte de nosso desejo e de constante procura.

O apóstolo Paulo, ao escrever aos cristãos da cidade de Corinto, aprofundou essa relação ao afirmar que nós somos a carta de Cristo”, isto é, testemunhas vivas de que a sua fidelidade amorosa ultrapassa os limites da morte garantindo-nos que a festa das bodas não só se realiza no aqui e agora (2 Cor. 3, 3-6), mas continuará para todo o sempre, definitivamente!

Quando nos ocupamos com guerras ou desavenças, colocamos nossas vidas a serviço da violência, da separação, da inimizade e da morte. Com essa postura não encontramos tempo para manifestar a ternura, o amor, o perdão, o nosso ser apaixonado. Mais ainda: perdemos a sensibilidade humana e agimos como animais ferozes, famintos, que partem para o abate dos mais fracos.

               De qualquer modo, a escolha será nossa e as consequências também. Se nos decidirmos pelo casamento com o Sagrado, com o Deus/Amor, é bom estarmos cientes da necessidade de grandes mudanças em nossa mentalidade e em nossos hábitos. Não há meio termo. Não chegaremos a lugar nenhum se persistirmos em “colocar remendo novo em pano velho (Mc. 2, 21). Em casamento de pessoas que se amam de verdade, não há remendos nem meios termos.

O nosso Deus insiste em falar conosco com carinho, com pleno acolhimento, com palavras
que plenificam de alegria o nosso coração Mais: quer construir conosco um ninho de ternura e amor. Abandonemos, definitivamente, os nossos temores, as teimosias bobas e assumamos de vez esse casamento.

E que os nossos filhos e afilhados, gerados desse Amor divino, prossigam comprometidos na construção da paz!

 

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