JÁ PESQUEI NO “INFERNO”!
JÁ PESQUEI NO “INFERNO”!
Antes que o amigo(a) leitor(a) desavisado(a) me considere um desvairado, devo esclarecer que não é nada disso que está pensando! Se achar que o diabo também anda solto, não é de minha responsabilidade, embora uma pessoa conhecida de minha boa terrinha do Passa Três (hoje Cesário Lange – SP.) tenha se dado mal com um “capeta” zombeteiro.
Contava essa pessoa que, certa noite, sonhou com o tinhoso que lhe fazia caretas e lhe mostrava a língua, rindo de sua cara. Desconhecedor de rituais de exorcismo, mas munido de incontida valentia, levantou-se bem devarinho e enquanto o diabo lhe virou as costas, meteu-lhe um vigoroso pontapé no trazeiro! Acertou em cheio, não o capeta, mas um baú para guardar roupas que ficava no quarto; baú daqueles antigos, feitos com tábuas bem fininhas, revestidos com papel colorido! Foi a sua sorte, pois o vigor de seu petardo custou-lhe sérios ferimentos dolorosos, mas sem nenhuma quebradura. O diabo o deixou com o pé direito inchado, com hematomas roxos e mancando por vários dias, isso sem contar as broncas de seus pais e a zombaria dos colegas da escola!
Deixemos agora o nosso valente amigo curtindo as suas dores, a vergonha, a raiva do diabo e vamos à pescaria. Pois é, lá pras bandas do Laranja Azeda onde vivi, o meu avô materno João Soares Adriano tinha um monjolo d´água para beneficiar o café, para fazer o milho virar canjica e milho azedo virar um pó úmido que se tornava, depois de torrado, na apreciada farinha de milho.
O monjolo ficava bem abaixo do nivel do tanque e recebia, por meio de uma bica condutora a água que o movimentava de modo ritmado, o “levanta e cai” da pesada peça de madeira no grande pilão, também de madeira, enterrado no chão. A água que caia da bica e impulsionva o monjolo ia se acumulando em um coxo atrás dele que depois se derramava em um espaço cavado com alguma profundidade e seguia o seu curso em um córrego paralelo. Esse lugar era conhecido por todos nós como “inferno”, o “inferno” do monjolo! Em vez de fogo, existia água, muita água! Tal espaço aquático se tornou um ótimo local para as nossas pescarias, pois os restos de milho eram aí jogados e os peixes faziam a festa com tanta fartura e nós fazíamos a festa com eles. Imagine então, cercar o córrego com uma peneira e passar a outra nesse “inferno” aquático. Além dos lambarís, bagres e saguarús, vinham também tuviras e, às vezes, alguma pirambóia, aquele peixe com jeitão de cobra!
Acho que o nome “inferno” foi dado ao local por estar abaixo do nível do rio, mas bem merecia ser chamado de paraíso diante da beleza das águas límpidas, das árvores frondosas e da fartura de peixes. Como se pode verificar, esse era o “inferno” da minha infância e de tantos de meu tempo. Hoje, o monjolo e o “inferno” desapareceram por causa da erosão da parte alta que soterrou a parte baixa, mas não desapareceram da minha memória de menino pobre e curioso.
Ainda escuto, em meu remoedor silêncio, o som das águas caindo e o ritmo monótono do monjolo atritando o pilão cheio de milho. Por incrível que pareça, também sinto o cheiro daquele milho azedo e canjicado que era lavado para fazer a farinha, uma presença obrigatória em nossos pratos! Guardo também na lembrança o meu avô colocando a “forca” no monjolo para que não ficasse socando sem necessidade. A “forca” não era nenhum instrumento de suplício, mas simplesmente um pedaço de madeira que se colocava no “pescoço” do monjolo levantado; assim ele permanecia travado e não tinha como se movimentar.
Sinto saudades desse mundo de rudezas mil, mas tão encantado que até fazia eu me sentir bem. Hoje, enfrentando a realidade da cidade grande, por vezes tenho a estranha vontade de retornar ao chão dos encantamentos onde, apesar da miséria, me reconhecia como gente. Agora, o meu ritmo não é mais o do monjolo ou da natureza, mas o ritmo implacável do relógio, o meu instrumento de suplício, que me lembra o que devo fazer a cada instante. Por falar nisso, com licença, está na hora de acordar!
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