BRAVA GENTE, MEU ORGULHO!

 BRAVA GENTE, MEU ORGULHO!

 

  João J. C. Sampaio

 

                          Não tenho dados para afirmar se nos anos passados havia mais civismo entre nós. Sei que, durante a minha permanência na escola fundamental, invariavelmente, todas as sextas feiras saudávamos a Bandeira Pátria. Nela aprendi a ver as pessoas simples deste País imenso. Simples, porque a minha infância foi vivida entre essas pessoas: lavradores e boias-frias; gente da roça, que desde cedo caminhava para o eito enfrentando o cabo da enxada na dura lide da lavoura.

 

  Apesar da rude labuta, tive o privilégio de entrar na escola e me tornar um admirador da cor verde desse Estandarte, porque parecia trazer em si a realidade da gente do mato, e o mato é verde! O amarelo, que ensinaram significar o ouro ou as nossas riquezas não me atraía, pois riqueza para nós era ter arroz e feijão na mesa. Na mesa não, só no prato de ágata malhado, desgastado pela idade e pelo uso. Caboclo não come na mesa, ele se acocora sem cerimônia em um canto qualquer e forra o estômago... E no culto à Bandeira cantávamos o Hino Nacional, aprendido nos incontáveis ensaios dentro da escola. Gostava do ritmo da música porque me sugeria uma carroça, como a de casa, rodando em estrada de terra com pedregulhos e buracos, mas a letra era complicada demais para meu minguado vocabulário. Onde se cantava: “HERÓICO BRADO” eu entendia “HERÓI COBRADO”, mas nunca indaguei sobre o triste destino desse tal sujeito... Ele, certamente, já penava com a famosa e impagável dívida externa e outros impostos! Ainda bem que a cor azul do Estandarte Pátrio sempre nos pertenceu no céu brilhante ou com as estrelas que piscavam para nós nas noites escuras, sem luas cheias.

 

                          Hoje, na distância dos anos vivenciados, mas ainda tão presentes na memória, concluí que não estava tão equivocado na minha compreensão. Continuamos com o “HERÓICO BRADO”: afinal temos que gritar e muito contra os que ousam impor a cangalha da opressão sobre os nossos ombros, mas temos que admitir também a existência do “HERÓI COBRADO”, porque milhões de brasileiros, apesar de todas as suas agruras, misérias e dificuldades, alicerçaram e persistem na construção deste belo País. Afinal, quem bota a mão no arado e faz esta terra produzir é essa imensa multidão de brasileiros anônimos. Aí se encontram os heróis, tão valorizados como mão de obra, mas nem sempre como gente. Eles também não se reconhecem como heróis... O certo é que o nosso País é construído com os muitos braços e mãos que não recusam manejar os seus instrumentos de trabalho, dos mais simples aos mais complexos.

                Muitos desses heróis continuam, infelizmente, a pagar um preço alto neste chão de riquezas, mas, ao mesmo tempo de tantas carências e injustiças. Até descobriram que “ABRIR O PEITO À PRÓPRIA MORTE”, cantado no Hino Nacional, não é apenas uma expressão poética.

                          A reflexão que hoje nos alimenta vem por inspiração do Profeta bíblico Ezequiel que responsabilizou os falsos pastores de Israel (governantes) pelo abandono do povo à própria sorte, com o agravante de se beneficiarem com a situação (Ez. 34). Vale a pena fazer a leitura desse texto sagrado! O cantor Geraldo Vandré bem lembrou e faz tempo, que “povo não é gado que se tange, engorda e mata” e não está aí para servir de pasto aos abutres devoradores. Ele não existe para dar lucro, também não é mercadoria ou qualquer objeto que se usa e se descarta ao bel-prazer.

 

  Creio, no entanto, que com uma Educação de qualidade para todos e critérios claros nas implantações da cidadania e do direito, esse “GIGANTE PELA PRÓPRIA NATUREZA” despertará pra valer e a canga que ainda hoje pesa sobre os seus ombros será despedaçada.

 

Em frente, brava gente! Você merece muito mais! 

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