ESCOLHIDOS, MAS PRESUNÇOSOS!



ESCOLHIDOS, MAS PRESUNÇOSOS!

João J. C. Sampaio

Ainda não se descobriu uma vacina que nos imunize da mania de grandeza e do vício de achar que os outros são ignorantes ou culpados pelos transtornos na vida.

Lemos nas Escrituras sagradas que certos membros do povo de Israel se julgavam os “bons” e protegidos por Deus porque descendiam dos famosos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. Se ocorria algum fato contra Israel, costumavam lançar, sem nenhum pudor, a culpa no povo mais humilde, considerado pecador. Quando oravam, também costumavam ser petulantes: “Graças te dou, ó Pai, porque não sou como os outros...” e desfiavam suas pretensas virtudes... (Lc. 18,11). Séculos antes, o profeta Jeremias já desmascarava essa incoerência afirmando que “cada um era responsável pelas suas próprias faltas” (Jr. 31, 29-30) e não só os mais pobres. Lamentavelmente, essa postura milenar ainda faz morada segura entre piedosos religiosos que se consideram os “bons”, os “justos” e “fiéis cumpridores da lei divina”.

Como os israelitas, também fomos escolhidos. Nenhum de nós é obra do acaso. Somos tão semelhantes a Davi, por exemplo, ungido rei segundo o coração de Deus (1 Sm. 16, 1-13), mas, como ele, muito frágeis diante dos problemas cotidianos. Vejamos o que aconteceu com o rei Davi que se apaixonou pela bonita Betsabé, esposa do soldado Urias, e a engravidou. Para escapar das maledicências permitiu que esse seu fiel soldado ficasse desprotegido no campo de batalha e lá morresse. Nada mais conveniente que a morte para fazer calar a boca de quem nos acusa e, aparentemente, manter as mãos limpas... À semelhança de alguns irmãos judeus, que viviam na hipocrisia das falsas seguranças, Davi também camuflou o seu pecado debaixo das vestes reais. Fazemos coisas semelhantes e também buscamos limpar as mãos.

Costumamos ocultar as nossas fraquezas com as desculpas mais esfarrapadas, que não resistem aos mais simples argumentos. Mas, mesmo assim nos apresentamos como corretos e nos camuflamos, como justos...

Felizmente, Deus nos envia seus profetas no intuito de reverter esse processo, incitando-nos à conversão. Para o rei Davi foi enviado o profeta Natan que o desmascarou, de modo que as suas vestes reais foram insuficientes para cobrir a sua ignomínia. E ele desabou do alto de seu aparente intocável pedestal. Não resistiu aos argumentos do julgamento de Deus expressos pela boca de seu profeta. E se arrependeu amargamente!

No tempo de Jesus, alguns de seus contemporâneos religiosos também viviam como juízes dos mais humildes. O evangelista Lucas nos conservou uma passagem onde uma prostituta lavou os pés de Jesus com suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Fez mais: perfumou os seus pés e os cobriu de beijos! Simão, um fariseu convicto, religioso considerado de primeira linha, pensou que Jesus não era o que diziam, pois permitira ali na sua frente, em sua casa (que afronta!) que se realizasse uma cena tão deprimente. (Lc. 7, 36-49). Para ele, essa mulher, pecadora pública, não deveria ter aparecido em sua casa!

Somos, muito ou pouco, adeptos dessas atitudes prepotentes. À semelhança dos israelitas, herdeiros das promessas divinas, achamos que não precisamos fazer mais nada, a não ser vigiar o comportamento dos pobres pecadores! Como alguns contemporâneos do profeta Jeremias, temos a mania de só verificar defeitos nos outros ou culpar nossos pais que nos deixaram como herança, o mal! Ou, no exemplo do rei Davi, nos consideramos privilegiados e achamos que podemos fazer o que quisermos, pois na condição de superiores, estamos imunes à penalidades. E ainda, somos parecidos ao fariseu Simão, que levou Jesus para jantar em sua casa e se sentiu ofendido porque uma prostituta tocou o Mestre e Este aceitou!

Sei que, como cristãos, vamos lutar para quebrar essas cadeias de orgulho. Quem sabe a atitude humilde e corajosa da prostituta nos promova a conversão e nos torne mais humildes e confiantes. Apesar dos pesares fomos todos escolhidos e “quem quiser ser o maior, seja o servidor de todos” (Mc. 10, 43).

Ainda bem que contamos com a misericórdia Daquele que nos ama e nos criou à sua imagem e semelhança!

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