CULTURA DO ÓDIO



CULTURA DO ÓDIO

João J. C. Sampaio


A humanidade deseja, ardentemente, construir a sua história com os resistentes tijolos da paz, amalgamados com a excelente argamassa da solidariedade, mas, mesmo assim vive sofrendo constantes abalos sísmicos em suas bases relacionais, comprovando que ainda não sabe dominar os seus impulsos de agressividade. É inacreditável que, como por encanto, ódios e rancores se irrompam poderosos, colocando abaixo anos, décadas ou séculos de construção. Mais: como é possível que o ser humano não tenha aprendido com os horrores de tantos conflitos e ainda permaneça em estado de beligerância! Que teimosia!

Os conflitos, porém, não se desenvolvem apenas em amplos níveis, mas se desencadeiam em qualquer espaço onde se encontre o ser humano com os seus interesses e paixões. Não escapam dessa rede de intrigas as piedosas comunidades eclesiais, nem as famílias consideradas perfeitas. Não se entende como o ódio e seus derivados se assenhoreiam de nossas vidas colocando nelas um apartamento do inferno.

O cotidiano é testemunha que nenhum de nós está imune a essa praga que age como caruncho, corroendo os bons sentimentos que acumulamos pela vida afora e embrutecendo as nossas ações. Até as fisionomias se mudam quando o ódio invade os nossos corações. Ele é como um fermento de gosto horrível que toma conta da gente e mata aos poucos. O ódio, certamente, encurta a vida, nos torna irracionais e fragiliza o que temos de melhor em nós.

Até as Sagradas Escrituras consideram o rancor e a raiva como elementos detestáveis e não conseguem entender, de modo especial, a incoerência de piedosos religiosos que suplicam a Deus o perdão de suas ofensas, mas não são capazes de perdoar os seus ofensores (Eclo. 27,33 e 28). Contra o “cancro-ódio”, doença contagiante e degenerativa, Jesus propõe um medicamento de garantida propriedade curativa, chamado perdão, que precisa ser tomado em doses generosas de “setenta vezes sete” (Mt. 18, 22), isto é, sempre! Além de seu excelente sabor, possui ainda benéficos efeitos colaterais...

O perdão é, sem dúvida, o grande desafio do seguidor de Jesus. Mais: ele é a condição única para sermos perdoados também. O perdão, à semelhança de uma boa moeda, é identificado pela sua dupla face. Só vale se tiver cara e coroa! Se assim não for, é moeda falsa que serve para enganar os desatentos e condenar as que a usam para obter proveitos em benefício próprio (Mt. 18, 25-34).

Nós que nos propomos a calçar as sandálias do Mestre e a Ele nos entregar sem condições (Rom. 14, 8) precisamos descobrir que o perdão vai muito além da prática da tolerância e que a nossa história será de paz se nos embebedarmos da mentalidade de nosso Deus que é todo poderoso, mas não deixa de ser carinho e compaixão (Sl. 103/102).

Se assim agirmos, lentamente iremos banindo o medo de nosso meio; não precisaremos rememorar com tristeza tantos episódios de morte e ódio que já ocorreram perto de nós e em tantos países.

Não permitamos que o ódio tome conta do planeta, mas, por favor, antes implantemos gestos amorosos em nossas famílias e em nossas comunidades. O céu já pode ser aqui!

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