CORPUS CHRISTI: MEMORIAL DA PARTILHA.

 

CORPUS CHRISTI: MEMORIAL DA PARTILHA.

  João J. C. Sampaio

 

                            Nós temos plena consciência da necessidade e do valor dos alimentos para as nossas vidas. Sem comida na mesa nossos corpos definham e podemos perecer por inanição. Na expressão rotineira de nossa gente: “saco vazio não para em pé!” Regra geral, é ao redor da mesa que celebramos a vida partilhada e, em momentos especiais, uma mesa farta se torna o centro da festa.

                            Na Páscoa judaica, a mesa é posta com o cordeiro, o pão ázimo e as ervas amargas. Com a posse da Terra prometida também recebeu uma jarra de vinho! O que me fascina e agradeço é que o nosso Deus coloca em nossa mesa os frutos da terra, resultado do esforço humano e de sua criatividade, que serão transformados em vitalidade e crescimento. Na mesa pascal da generosidade senta o nosso Deus e sentamos nós para participar de uma refeição sagrada!

                            A refeição, desde tempos primordiais, se tornou o espaço do comunitário e da partilha. Ela é preparada para todos os que estão em casa e, se chegar alguém, “senta-se à mesa com a gente”, como reza uma melodia portuguesa. A refeição traz a marca da amorosa amizade. Quando convidamos alguém para comer conosco é porque esse alguém é muito importante para nós e queremos demonstrar-lhe o nosso carinho e apreço. Quem come à nossa mesa é nosso amigo e com ele, certamente, sempre podemos contar! Jamais nos voltará suas costas nos momentos de aflição.

                            Na verdade, quando convidamos alguém para tomar uma refeição conosco, ele não come ou bebe apenas do que colocamos à mesa. Na comida e na bebida que oferecemos estamos nós com tudo o que temos e somos. Nossa refeição é temperada com ingredientes de nossa vida: a luta diária que travamos, o suor que derramamos, as dificuldades que sentimos no mundo do trabalho, os sonhos, as incertezas do amanhã, as preocupações com doenças ou educação dos filhos e tantas outras coisas. Tomar uma refeição comigo é participar de minha intimidade nos mínimos detalhes! É comer de minha própria vida. Os filhos podem afirmar isso como elogio e gratidão aos seus pais.

                            Ao celebrarmos a festa de Corpus Christi, contemplamos Jesus com os Apóstolos na sua última ceia. No “último momento” da vida manifestamos todo nosso bem querer e o que mais nos importa! JESUS, sabendo que seu momento chegara, ao partir e distribuir o pão afirmou: “ISTO É O MEU CORPO”! Disse ainda que o vinho “É MEU SANGUE DA NOVA E ETERNA ALIANÇA”. Finalmente, determinou: “FAÇAM O QUE FIZ EM MINHA MEMÓRIA!” Vejo o Mestre e Senhor Jesus selando a sua profunda amizade conosco e nos legando a REFEIÇÃO mais sagrada que podemos saborear! Ele mesmo é o alimento e nos convida, como amigos, para esse precioso momento de partilha!

                            O “fazer em memória” é absolutamente maravilhoso! Nessa expressão não se encontra uma simples lembrança que pode ser passageira ou esquecida com o tempo, mas a memória que se fundamenta em um amor tão profundo que espaço ou tempo jamais acabam. Na MEMÓRIA o tempo é sempre PRESENTE e o AMOR é sempre o mesmo. Não é por acaso que Jesus nos confidenciou: “Eis que estou convosco todos os dias até o final dos tempos” (Mt. 28, 20).

                            Nós cristãos seremos reconhecidos pelos mesmos gestos generosos de nosso Mestre e Senhor Jesus. Seremos, inclusive, julgados pelos nossos gestos de partilha ou ausência deles. O Evangelho de Mateus nos proporciona uma amostra desse partilhamento que nos garante a vida eterna. “Estava com fome e você me deu de comer; com sede e meu deu de beber; nu e me vestiu; doente ou prisioneiro e me visitou” (Mt. 25. 35-36).

                            Uma nota importante: que o nosso coração se abra para as necessidades de nossos irmãos, lembrando, agradecidos, que o Filho Unigênito de Deus foi muito além: partilhou conosco o seu preciosíssimo Sangue e o seu santo Corpo dilacerado para que, um dia, pudéssemos participar das alegrias no banquete eterno! 

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