INTEGRE, NÃO SE ENTREGUE!


INTEGRE, NÃO SE ENTREGUE!

João J. C. Sampaio


É bom chegar em casa e sentir o aroma convidativo do almoço pronto, colocado à mesa e à nossa espera. Repetimos diariamente esse prazeroso gesto, mas não é comum fazermos uma pausa para elogiar o esforço das mãos habilidosas que possibilitaram mais uma refeição. Que bom encontrar tudo pronto! Assim passamos nossos dias sendo agraciados pelos outros como se tivessem obrigações e nós, só benesses!


De fato, somos muitas vezes beneficiados com a famosa lei do menor esforço. Essa lei é adotada porque nos promove satisfação, conforto e muita acomodação. A acomodação exagerada chega a transformar a nossa paciência em impaciência! As críticas, as exigências e as broncas persistem, mas para os outros! Há momentos que procedemos como se fôssemos os únicos seres intocáveis e privilegiados do planeta.


Essa postura não me parece apropriada ao ser pensante e cristão que somos ou imaginamos ser. O nosso crescimento humano se processa na caminhada, na construção criativa, na partilha, nos aplausos ou elogios aos que nos ajudam, na constante reavaliação de nossas ações e dos acontecimentos. O definitivo pertence ao Senhor da vida! A nós cabe buscá-lo.


Gosto de contemplar nas Escrituras o casal Abraão/Sara que aceitou o desafio de buscar uma terra que seria povoada pelos seus descendentes, com as dificuldades, fragilidades e contradições encontradas. Admiro o Abraão preocupado com os três homens que apareceram nas proximidades de sua tenda. Eles não poderiam continuar a caminhada sem antes aceitarem a sua hospedagem saciando a fome e a sede (Gen. 18 1-8). Admiro-o, ainda mais, quando toma conhecimento, por meio desses homens, que as cidades de Sodoma e Gomorra serão destruídas e, angustiado, entra num suplicante diálogo na tentativa de salvá-las. Discute até se extinguirem os argumentos. Implora por misericórdia, entende as razões apresentadas, mas não se conforma (Gen. 18, 16-33). Fico a pensar que esse homem, antes de ser considerado o “pai da fé”, foi o “pai da teimosia”. Quem sabe as duas atitudes se confundam!


Gestos semelhantes são comuns nas páginas bíblicas. O próprio Jesus faz questão de demonstrá-los “na busca da única ovelha perdida” (Mt. 18, 12-14); “na alegria causada no céu por um pecador que muda sua postura de vida” (Lc. 15, 7-10); no “carinho do samaritano para com o ferido na beira do caminho” (Lc. 10, 25-36); “na festa de casamento em Caná da Galilélia” (Jo. 2, 1-12) e em outras tantas situações. São atitudes de pessoas que não se acomodam diante das circunstâncias aparentemente irreversíveis. Estão sempre buscando saídas, soluções, criando condições novas, ajudando, incentivando...


O nosso momento histórico, com as suas inúmeras facilidades e contradições não podem nos reduzir em egoístas e acomodados. Como em qualquer tempo, há muito a fazer. Pela indiferença nossa e de tantos, aí estão drogados aos montes, gente passando fome, com depressão, sem rumo, sem amigos, sem uma palavra de estímulo, padecendo de tantas formas de necessidade. Às vezes penso que a única “ovelha perdida” seja eu mesmo, porque só penso em mim, em meus direitos, em meu conforto, enfim, AINDA NÃO ME CONVERTI, isto é, não me comprometi pra valer com minha comunidade ou com as pessoas com as quais convivo diariamente, de modo especial com as de minha casa! Ainda fico esperando pelo “prato feito” pelos outros e mais: que também “lavem o meu prato”!


Acredito que seguir o Mestre Jesus é estar atento ao que ocorre ao nosso redor; é estender as mãos e o coração, preocupar-se com o outro, agir em seu favor, defender se preciso, curar feridas, enfim, viver como Deus Pai espera de nós. É descobrir que a vida é uma constante e amorosa ação construtiva. É acreditar que o possível está no fazer ou nas suas inúmeras tentativas. É SE INTEGRAR E NÃO SE ENTREGAR!


Todos somos convidados a vestir a camisa de um time ousado, que pode perder partidas, mas jamais abandona o campo!


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