ANIQUILOU-SE...
ANIQUILOU-SE...
João J. C. Sampaio
Infelizmente participamos, sem nenhum ou pouco escrúpulo, do ingrato mundo das desculpas e do comodismo. Quando somos convidados a nos comprometer com algo essencial, mais decisivo, importante ou que simplesmente nos tome mais tempo, regra geral apresentamos mil-e-uma justificativas ou explicações, como fez o Apóstolo Pedro diante da criada, no pátio da casa do sumo sacerdote... (Mt. 26, 69-75) Nós estamos ao lado, a favor, juramos fidelidade, dizemos que não abrimos mão, reafirmamos nosso compromisso desde que não exijam a nossa efetiva participação...
Nesta Semana que apropriadamente a chamamos de Santa, vamos avaliar a nossa missão comparando-a com a do Mestre Jesus que foi aclamado com hosanas em sua entrada triunfal em Jerusalém, mas em seguida se viu envolvido nas tramas impiedosas do poder reinante. Sentiu no corpo e na alma o significado da incompreensão, do sofrimento, da solidão, da traição humilhante até de seus amigos mais chegados!
Foi vendido, injustamente preso, ridicularizado, violentado, aniquilado... Os poderosos de seu tempo, na usual demonstração de força e covardia, mais uma vez atestaram, sem rodeios, o que todo mundo já sabia: “o que não se convence com a razão, se condena e se abate pela força!”
Fico a meditar que essa mesma trama do passado se encontra nos caminhos dos fiéis seguidores do Cristo salvador. O próprio Senhor nos assegurou que “se eles fizeram isso ao lenho verde, o que acontecerá ao seco?” Por isso, é necessário estar preparado para o que der e vier (Lc. 23, 31). De fato, em nossa humana fragilidade, não somos diferentes dos seus Apóstolos, sempre próximos, testemunhas de todo o bem que Ele fez, mas que em várias ocasiões O decepcionaram... Somos bem parecidos aos irmãos Tiago e João que manifestaram o desejo de se assentarem ao lado de Jesus em sua glória e causaram sérias intrigas entre os companheiros. De vez em quando recaímos na triste discussão sobre quem é o maior... (Lc. 22, 24-26) Ou então, juramos como Pedro que persistiremos na missão mesmo que o preço seja a morte, mas voltamos atrás na primeira turbulência (Mt. 26, 69-75). Isso tudo quando não lavamos as mãos como Pilatos e deixamos o pobre, o injustiçado, o pequeno, o desprezado, o inocente perecerem (Mt. 27, 24).
O que não dizer de nossa covardia: quando mais precisam de nós e lançamos o grito de “preferir Barrabás!” (Jo. 18, 39-40). Como esses seguidores de Jesus, também dormimos enquanto muitos de nossos irmãos suam sangue e imploram ao Pai que afaste o cálice de angústia e sofrimento (Mc. 14, 32-40)!
Estamos da boca pra fora sempre prontos, mas continuamos relutantes em ceder uma hora de nosso tempo a quem o solicita, principalmente quando nos incomoda ou não nos convém! Pior é quando vendemos os irmãos (Mt. 26, 14-16) avaliando-os como simples mercadorias, objetos de lucro ou de interesses escusos. “Melhor seria se não tivesse nascido”, lamentará Jesus sobre a atitude de Judas Iscariotes ao vendê-lo por trinta moedas (Mt. 26, 23-25)! O que não dizer de nós mesmos? Não tenho dúvidas de que a profunda intercessão do Crucificado:- “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc. 23, 34), também vem em nossa direção... Ainda bem!
E todo esse suplício, porque o Senhor sempre fez questão de estar ao lado do mais fraco, do sofredor, do sem arrimo, do excluído e desiludido, sem forças para viver.
A nossa missão é a de continuadores da obra desse fantástico Mestre, homem provado no sofrimento que deseja ardentemente quebrar de vez as condições de morte em nosso meio e proclamar solenemente, com a nossa adesão decidida e solidária, um mundo de ressuscitados.
Aliás, para o nosso conforto e regozijo, Ele já decretou: “Eis que faço novas todas as coisas!” (Apc. 21, 3-5)
Comentários
Postar um comentário