BOLO COM RECHEIO DE SAUDADES!
BOLO COM RECHEIO DE SAUDADES!
Dedicado a todos(as) que já ingressaram nos anos “enta” = 40, 50, etc...
João J. C. Sampaio
A nossa língua portuguesa é mesmo surpreendente, pois em uma só palavra pode esconder um punhado de significados.
Entre esses vocábulos se encontra o bolo, palavra que sugere coisa gostosa, barriga cheia, aniversário, casamento, alegria, festa, recheios, sabores e muito mais... Há até quem jure de pés juntos, que um bispo de Botucatu, ao visitar uma paróquia, no momento da distribuição da comunhão em uma das missas, viu tanta gente correndo para comunhar primeiro, que gritou com a hóstia na mão: “Olha o bolo! Olha o bolo!” Evidentemente, não queria dizer que a hóstia fosse o bolo, mas sim aquela gente amontoada, de modo desorganizado. Em tempos pouco passados, se usava a expressão “deu bolo” para falar de um final inesperado ou que virou em nada, mais ou menos como expressamos “acabou em pizza!” Também quando tentamos explicar alguma receita e não somos bem sucedidos, concluimos que é “como fazer bolo”. De bolo, também pode ter derivado o vocábulo “bolacha” um bolo em miniatura, diferente da “bolacha” que pode se levar na cara... Levei de meus pais muita “bolachada”... Como dói! Um sambista até escreveu: “vou dar “bolacha” em quem mexer com minha nega!”
Um amigo meu, trabalhando como professor no meio do sertão, lá nos fundilhos da ilha de Cananéia (SP), longe de tudo e de todos, numa tarde preguiçosa resolveu fazer um bolo para quebrar a monotonia do isolamento. Colocou as mãos à obra e à massa quando percebeu que faltava um ingrediente essencial chamado fermento, mas mesmo assim foi em frente. Depois de assado, não teve certeza se da receita saiu um bolo ou uma calota de fusquinha. Chateado com o fracasso, foi rolando aquela coisa de um lado para outro da sala, pelo chão de táboas até se cansar. De tanto repetir o exercício, sentiu o estômago roncar esfaimado e lá se foi o bolo meio cimentado goela abaixo, roído pouco a pouco e regado com muita água. Ele garantiu que foi o bolo mais saboroso que comeu em toda a sua vida! O que não faz a fome!
O meu amigo assim afirmou porque não experimentou do bolo que fez a minha mãe quando me formei na quarta série da escola primária, no ainda chamado Grupo Escolar “Cesário Lange” (SP). No dia da formatura todos os alunos deveriam levar um bolo para a festa e eu, com muita súplica lacrimal, consegui um com a minha mãe que, com dificuldade, arrumou farinha de trigo emprestada no vizinho. Como um reizinho, lá fui eu levando a preciosidade, um bolo bem tostadinho, quase queimado na supefície, assado em panela de ferro com diâmetro de miséria e uns três centímetros de altura! Conforme o costume de nossa gente, para assar bolo, por cima da panela colocava-se uma tampa de lata de querosene, um quadradinho dessa lata onde se empilhavam as brasas, normalmente conseguidas com sabugo, de milho é claro, sabugos às vezes usados para limpar, todo mundo sabe o quê, atrás de qualquer árvore ou bananeira!
Chegando à festa, verifiquei uma quantidade indescritível de bolos, uns mais lindos que outros, enfeitados de várias cores, recheados, confeitados, bem cheirosos, altos, baixos, enfim bolos pra ninguém botar defeito. Finda a cerimônia da entrega dos certificados, todos nós nos empanturramos dessas gostosuras artísticas, mas no bolo que havia levado ninguém mexeu. Lá ficou isolado, intocado, desprezado, envergonhado até acabar a festa. Afinal, o que fazia aquele desclassificado em meio aos bolos da alta classe! Sociologicamente falando, que ousadia de um bolinho proletário entre a nobreza bolística! Nada mais humilhante que ser um bolinho qualquer, tipo pirateado em meio a requintadas espécimens, revestidas de beleza e gostosuras.
Encerrada a festa, decretou a minha professora que poderia levar “aquela coisa” de volta para a casa. Assim, minha mãe e eu regressamos a pé ao bairro da Laranja Azeda, onde outros irmãos ao ver o retorno intocado de tamanha maravilha, não deixaram sobrar nem o esfarelado do bolo. Não comente e nem ria o caro leitor e a cara leitora, mas lá em casa, nem rato ousava passear durante o dia!
Atualmente, em condição social mais favorável, posso comer do bolo que quiser, porém ele já não exerce tanta atração sobre mim. No entanto, quando vejo algum bolo nos aniversários ou em outras solenidades, a minha memória se agita e contempla, como se fosse hoje, a minha laboriosa mãe amassando e assando os seus bolos recheados a lágrimas, a dificuldades e rudezas da vida. Não sei bem o porquê de me ver envolvido em tanta saudade e lágrimas. Quem sabe esses bolos tivessem mais sabor de luta e desejo de vida. Agora, nos meus muitos anos “entas” tenho a convicção de que a minha mãe recheava os seus bolos com aquilo que ela tinha de sobra: Amor Maternal!
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