PARTIR É PRECISO!
PARTIR É PRECISO!
João J. C. Sampaio
Parece ser inerente à condição humana se colocar em posição de partida. Nós já fizemos essa experiência algumas vezes, mesmo sem perceber. Começamos por deixar a nossa infância, o grupo escolar, as brincadeiras de criança, a adolescência das mil-e-uma indagações, a juventude (no meu caso) e tantas outras coisas pelo caminho da existência. Deixamos até a nossa família, o lugar privilegiado da convivência, de onde jamais pensamos sair. Nem todo amor de nossos pais e as suas carinhosas asas protetoras, foram suficientes para barrar os incontroláveis impulsos de voos e de sonhos!
Nossos pais também fizeram a opção pela partida ou partidas. Partir, apesar da dor da separação e dos riscos, é preciso. Todos, com raras exceções, vivenciaremos esses momentos cruciais. São decisões radicalmente vitais que nos levaram a campear novos rumos, no desejo ardente de ser feliz. Até nascemos com os pés em posição de partida, na sugestiva busca do novo, para abrir mais espaços ou atingir o horizonte longínquo onde a vida possa ser mais realizadora. Ninguém segura esse dinamismo. Quem ousa desafiá-lo, atrofia-se e torna-se uma anomalia. É comum ouvirmos críticas sobre pessoas que, depois de adultas, ainda vivem na “barra da saia”, apáticas, sem coragem de assumir o que a vida tem a oferecer. Há um termo, sugestivamente criado, o do “NEMNEM”: qualificando o que NEM estuda, NEM trabalha... Esse confia que é muito mais cômodo e seguro ser a eterna criança!
Nós, que admiramos o Cristo Jesus, que fazemos questão de carregar o qualificativo de cristãos e decidimos seguir as pegadas desse Mestre e Senhor, precisamos cultivar essa mentalidade de estar sempre preparado para a partida. O cristão, além de ser um arauto da Esperança, é convocado a colocar as mãos no arado, procurando construir um modelo de sociedade onde se cultive o “mandamento do amor”, visível na solidariedade, na atenção aos mais carentes, na amizade gostosa que nos faz mais irmãos e nas tantas formas de boas relações humanas. Em nosso caso, partir é mais que vocação, é pura convocação! Não foi por acaso que o próprio Jesus partiu da Casa do Pai e veio morar conosco!
Se prestarmos um pouco mais de atenção às leituras bíblicas, verificaremos que, com frequência, Deus se manifesta emitindo ordens para que a gente enfrente os desafios da vida. Alguns exemplos nos ajudam. A missão que Deus confiou a Moisés para libertar o povo Hebreu da escravidão do Egito começou com um “VAI” (Ex. 3, 16). Gedeão, um dos juízes de Israel, também ouviu a mesma expressão e venceu os Madianitas (Jz. 6, 14); com o profeta Isaías não foi diferente (Is. 6,9); os Apóstolos foram chamados e enviados por Jesus com um “IDE” (Mt. 28, 19-20). Há outros exemplos que podem ser verificados. O Papa Francisco, de quem guardamos imensa admiração, nos propôs “uma Igreja em saída...”
Os ordenamentos de partida se multiplicam nos textos sagrados, sempre nos impulsionando a sair de nosso comodismo e da pseudo segurança. Hoje, de modo especial, voltemos os olhos para a pessoa de Abraão, que recebeu de Deus uma ordem contundente: “SAI DA TUA TERRA E VAI...” (Gn. 12, 1). A sua obediência fez história e nós a conhecemos. Na verdade, o Abraão de agora somos nós que procuramos ouvir a voz de Deus que vem se manifestando de muitos modos. Quem, de fato ouvir essa voz não poderá permanecer indiferente e partirá. O que encontraremos pelo caminho não sei! Sei, por experiência de vida, que ELE caminha conosco e que as paisagens só aparecem à medida que avançamos... É partir e confiar!
Como tantos personagens bíblicos, hoje somos convocados a sair, antes de tudo, de nós mesmos e buscar entender o que Deus pede de nós! Certamente, há muita coisa a ser realizada em nossas próprias casas e ao lado delas, em nossa rua, em nossa comunidade e nem precisamos ir tão longe! Com os meus muitos anos de vida, fico a imaginar que ainda é tempo de partir na busca de mais amigos e fazer deles irmãos muito amados.
Seja qual for a missão, vamos nos abrir a ela porque “a messe continua grande e os operários ainda são poucos” (Mt. 9, 35-38).
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