SE TODOS FOSSEM COMO EU
SE TODOS FOSSEM COMO EU...
João J. C. Sampaio
Há uma doença grave que tomou conta do planeta e vem fazendo milhões de vítimas. É um vírus resistente e renitente. Está presente em todas as camadas sociais e não escolhe raça, cor, idade, sexo, ou preferências políticas e de credo. Não deveria, mas os seus sintomas são detectados com facilidade nas comunidades religiosas que, regra geral, quase tudo justificam “em nome de Deus”!
Tal inoculação viral leva as pessoas a se julgarem as melhores, as perfeitas, a estufarem o peito gabando de si mesmas; a ocuparem os primeiros lugares e os espaços estratégicos para que outros não entrem; a se proclamarem como boas a ponto de falsearem o direito e a justiça. Em resumo: aceitam Deus cuidando do céu, desde que elas comandem a terra! Aliás, se consideram autossuficientes, não escutam ou fazem de conta que escutam, se acham as mais preparadas, pensam que são infalíveis, até se debulham em orações impressionantes (Lc. 18, 9-14) e, frequentemente, se elevam como modelos exemplares....
Impressionante, é que o remédio para eliminar essa doença existe e todos têm acesso a ele, mas nem sempre se reconhecem necessitados e não o tomam!
Essa casta doentia, acomodada em seu berço etéreo, não consegue perceber que o mundo é maior do que as suas pretensões e que ele não gira em torno de seu umbigo deformado. Embora desmascarada, dificilmente se desaloja de suas posições de bem-aventurados.
O Mestre e Senhor Jesus insiste que tomemos o remédio. O seu efeito, a princípio para assepsia, produzirá um novo vigor e permitirá que enxerguemos o mundo com olhos de misericórdia, à semelhança do pai, mencionado no Evangelho, que acolheu cheio de felicidade o filho que abandonou a casa e desperdiçou toda a sua herança... (Lc. 15). Creio que somos convidados a agir assim, deixando de lado a nossa arrogância, prepotência e pré-julgamentos, engajando-nos na missão de “procurar e salvar quem se encontra perdido” (Lc.19, 9). Nessa busca se patenteia o ministério do perdão que age reconstruindo a vida das pessoas. Quando a nossa mentalidade descobre os significados de servir os outros e o OUTRO, de engrandecer o comunitário, de fazer o crescimento do pequeno, de acordar o que dorme, de acolher o marginalizado, de estender as mãos aos que se enveredaram por caminhos não recomendáveis, estamos começando a tomar as doses certas do remédio salutar. Cada doente que se cura favorece o acúmulo de ar mais purificado no agradável convívio da fraternidade.
Fundamental é evitar em nossas comunidades cristãs a atitude do irmão mais velho, explicitada na parábola do filho pródigo, que se fechou na intolerância dos que se declaram como bons, assumindo a deprimente atitude de vítima (Lc. 15, 25-30). Notemos a expressão: “irmão mais velho”, colocada por Jesus. Supõe-se que os mais experimentados na vida sejam também os mais compreensivos e compassivos...
Certamente, o irmão mais velho era cumpridor de suas obrigações, como muitos de nós. A proposta cristã, porém, vai além, pois não é inteligente confundir a nossa ilusória superioridade com auto-piedade e críticas. Há muitas pessoas boas no mundo, quem sabe nós mesmos, mas incapazes de reagir ante os sofrimentos dos mais humildes e necessitados.
Podemos até nos trancar em condomínios seguros, mas se não buscarmos ser mais humanos. atenciosos e acolhedores, instaurando verdadeiramente o Reino de Deus no “aqui e agora” de nossas vidas, corremos o risco de ter o mesmo destino do “rico do Evangelho” (Lc. 16, 19-31) que se banqueteava todos os dias, não se importando com o pobre Lázaro que suspirava pelas migalhas que caiam de sua mesa! Ou ainda, viver na vaidade da aparente superioridade como lemos na parábola do “fariseu e do publicano” (Lc. 18, 9-14). Precisamos acordar...
Que maravilha seria o mundo se todos nós fôssemos, só um pouquinho, como Jesus!
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