DA DESILUSÃO A AÇÃO
DA DESILUSÃO À AÇÃO...
João J. C. Sampaio
O tempo pascal nos revela que na aparente fragilidade do Cristo Sofredor se encontra a manifestação do poder de Deus. É muito doloroso vivenciar a sexta-feira santa com tantas e tão profundas decepções. Afinal, as esperanças que tínhamos em um mundo melhor, com mais segurança, com expectativas de vida abundante, realizações e outras benesses, entraram pelo ralo das desilusões...
Esses eram alguns dos sentimentos dos apóstolos, dos discípulos, da mãe Maria e das mulheres que acompanharam Jesus em suas andanças benfazejas. Os discípulos de Emaús que voltavam acabrunhados para o seu vilarejo demonstram bem esse contexto de derrota! O evangelista Lucas descreve a decepção desses discípulos e, ao mesmo tempo, o espanto deles ao encontrarem no caminho um homem aparentemente desligado dos últimos acontecimentos ocorridos na cidade de Jerusalém... (Lc. 24, 13-33).
De fato, as coisas se complicam e o mundo parece desabar sobre nossas cabeças quando, desiludidos, perdemos a esperança. A insegurança vivenciada pelos discípulos do Mestre Jesus é também a nossa. Experimentamos nos dias atuais momentos dolorosos, violentos, de dúvidas, sem perspectivas ou sinais de mudanças.
Vivemos, na prática, o doloroso e interminável conflito de nossas diferenças e indiferenças. O nosso planeta deixou de vivenciar, há muito tempo, as condições benfazejas de paraíso criado por Deus e entregue a todos nós. Chegamos a desconfiar de que até o próprio Deus não mais passeia por aqui com medo de alguma violência... (Gn.3, 8). Nada mais desolador. Respiramos insatisfação. Almoçamos discórdia e jantamos destroços da esperança. Só falta fazer o enterro de tudo e de todos nós!
Os lamentos, porém, por mais dramáticos que sejam, não resolverão os nossos problemas. Eles costumam cegar os olhos já míopes e paralisar as nossas ações. Assim vivemos como derrotados, de cabeças baixas. Perdemos a ousadia de contemplar os horizontes... É fundamental retomar a consciência de que somos seguidores do Mestre e Senhor Jesus, e, como tais, nós fomos tecidos com fios da resistente Esperança. Gente com Esperança é gente que busca sempre o melhor, que se põe a caminho e abre caminhos. Se necessário, pisar de novo o chão da estrada que leva para Emaús onde Jesus nos abrirá os olhos para a possibilidade da Vida plena com o ensinamento das Escrituras Sagradas. Imaginemos o que seria da humanidade se Jesus, pensando como nós, agindo com medo, decepcionado com tudo e com todos, não assumisse a sua missão redentora!
Nós que bebemos da ousadia do Cristo Ressuscitado e da sua Divina Palavra, vamos descobrir as saídas. Os discípulos de Emaús perceberam e nós com eles, que a partilha é o elemento essencial para o início da solução de nossos problemas. Entendamos o vocábulo partilha no sentido mais amplo possível: desde o repartir do pão que se encontra à nossa mesa, até a entrega da própria vida, se necessário! Foi assim que Jesus nos convenceu: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo. 15, 13). É desse modo que a semente, aparentemente perdida dentro da terra, brota e produz muito fruto. Essa é a vida de ressuscitados: vida de gente corajosa, que não se intimida com o impossível aparente e se arrisca pra valer na construção de um novo paraíso terrestre.
A missão do Senhor Jesus ressuscitado é a nossa missão. Ele pede aos apóstolos que O encontrem na Galileia após a ressurreição. Assim como Ele começou o seu ministério pela carente e desprezada Galileia, hoje somos convidados a fazer o mesmo. Não queremos mais a Galileia dos marginalizados, dos desempregados, dos analfabetos, dos sem terra e sem teto, dos sem vez e voz, dos farrapos com aparência humana. Queremos uma Galileia de ressuscitados, de gente com vida de gente!
Se não colocarmos as mãos à obra, os nossos lamentos não resolverão problemas. Para isso é fundamental ter a convicção de que não estamos mais do lado dos Pilatos que vivem a lavar as mãos... O nosso desafio é de estar junto ao Senhor Ressuscitado que nos convoca ao serviço da construção de um mundo novo!
Que a nossa resposta seja um decisivo SIM como a do profeta Isaías que se colocou a disposição: “Eis me aqui Senhor, envia-me!” (Is. 6, 8).
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