A MULHER MAIS RICA DE MINHA TERRA.

 A MULHER MAIS RICA DE MINHA TERRA.

 

  João J. C. Sampaio

 

                            Hoje peço licença ao literato tatuiano Paulo Setubal, para tomar emprestado o título de um dos capítulos de seu magnifico livro “CONFITEOR”, em cujas páginas escreveu, magistralmente, sobre “O homem mais rico de minha terra”. Tratava-se de “Seu” Chico Pereira, o Santo Chico, que lia e explicava, todas as tardes, o Evangelho de Jesus para os velhinhos do Lar São Vicente, de Tatuí / SP (Brasil).

 

                    A mulher mais rica de minha terra era tão humilde e prestativa como o Santo Chico, com uma diferença: ela não tinha estudos, não sabia ler nem escrever, sequer rabiscava o seu nome. As dificudades acarretadas pela pobreza, a moradia distante da vila de Passa-Três (atual Cesário Lange / SP.), fez com que essa mulher simpática e miudinha nunca frequentasse os bancos escolares. Nesses tempos de pouca leitura, de machismo exacerbado e de mentalidade tacanha, a maior parte das mulheres, na dolorosa submissão doméstica, não ía para a escola porque, no entendimento dessa gente, “pra fazer arroz e feijão pra marido, mulher não precisava de estudo!”

 

                            Isso, porém, não fez dela uma derrotada. Ao contrário, se Tatuí teve o Santo Chico, a vila de Passa-Três também teve o privilégio de conviver com a “Santa Nitinha”! Nitinha, um apelido carinhoso que veio não sei de onde porque o seu nome de Batismo e de Registro Civil foi Benedita; a Benedita Corrêa Sampaio, nome comum e simples como também foi a sua vida inteira.

 

  Ela perdeu seus pais ainda jovens e, não bastando essa tristeza, foi acometida de uma doença grave que fez com que os ossos de sua coluna e de suas pernas se dobrassem para frente e não pudesse mais andar ereta. Seus passos eram dados com dificuldades, sempre apoiando a mão direita em sua perna direita. Passou, então, a morar com seu irmão em uma chácara, na atual Rua Passa-Três onde aprendeu a fazer roupas, contando com o auxílio de uma antiga máquina de costura, manejada exlusivamente com as mãos. Sentada em uma pequena cadeira tecida de taboa (biri do brejo) e com a máquina à sua frente, aí passava horas e horas em cansativa labuta.

 

                            Com as constantes mudanças de moradia de seu irmão Honorato, acabou comprando, com as parcas economias, uma casinha feita de barro na Rua Aristides Vasconcelos Leite, em frente à antiga cadeia pública, pertinho da praça da Matriz e aí viveu até o final de seus dias.

 

                            Apesar de tantos problemas, nunca a vi maldizendo a vida que levava mesmo depois que um derrame paralizou parcialmente o seu braço esquerdo; ao contrário, vivia sorrindo ou dando seus conselhos. Até quando suas forças permitiram, elaborava suas peças de costuras, dedicava-se à sua hortinha com poucas verduras e à arte de fazer cestos e balaios, dos grandes aos pequenos, pintados ou não, mas sempre com grande esmero. Ainda guardo, como preciosidade, um desses balainhos tecidos por suas laboriosas mãos.

               

                            A sua casinha era o ponto de referência para muita gente da Vila do Passa Três e de sua zona rural. Dificilmente, quando eu lá chegava, não encontrasse alguém nas descontraídas prosas. Ainda sinto o gosto bom de seu cafezinho. Ela sempre tinha uma palavra de ânimo para todos; recomendava chás de ervas contra algum incômodo; fazia rezas especiais para as mais diversas necessidades curativas; colocava brasas em uma caneca com água para livrar as crianças “de lombriga, susto e quebranto”; “cortava as inguas”; fazia benzimentos com orações indecifráveis, mas com profunda fé ou simplesmente presenteava os que a procuravam com gestos de carinho.

 

                            Ainda me lembro da dificuldade de caminhar, aos domingos, até a Igreja Matriz de Santa Cruz para a Missa. Sabia que não precisava de tanto sacrifício, mas fazia com muita devoção e piedade.

 

                            Há muito mais a dizer da Santa Nitinha, a minha Madrinha de Batismo, de quem me orgulho tanto. Ela, como o Santo Chico Pereira de Tatuí, também cumpriu sua bela trajetória neste planeta, bem pertinho da gente, só fazendo o bem.

 

  Ainda hoje, nas raras vezes que passo em frente à sua casinha, parece que a vejo sorrindo na janela. Já não fico mais aí parado contemplando a minha imaginação para não me parecer ridículo, mas com os olhos marejados em lágrimas teimosas, pronuncio em meu íntimo “a sua bênção Madrinha!” Tenho plena convicção de que ela continua me abençoando! 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOFRER É PRECISO?

FINADOS OU REFINADOS?

A VIRTUDE DA BRINCADEIRA